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  • Fred Di Giacomo

O Brasil é uma grande boate de Goiânia

Atualizado: 20 de jun.

originalmente publicado no portal Uol, em 24/03/2021




O cantor sertanejo Rodolffo, natural de Uruaçu (GO), famoso pelos hits "Declaração pro bar” (mais de 67 milhões de plays no Spotify) e “Também sei fazer falta” (mais de 38 milhões de plays na mesma plataforma) que canta em dupla com Israel se livrou do último paredão do BBB por menos de 1%. O que levou o goiano a ser indicada, de última hora, pelo líder Gil foi a declaração “Como que leva esse menino de vestido para as boates de Goiânia?”, após o cantor Fiuk experimentr um vestido para usar na festa daquela noite. Gil, que é homossexual assumido, não gostou do que Rodolffo chamou de “brincadeira”. Rodolffo ainda completou: “É as chérrima (os gays) vão nele”. Gil usou a homofobia (ou seria transfobia?) de Rodolffo, seu aliado naquele momento, para indicá-lo ao paredão. Famosos como Cleo Pires, Tati Quebra Barraco e Bruno Gagliasso foram ao Twitter pedir a eliminação do cantor. A exceção foram “só” as duplas sertanejas. Acontece que no Brasil, hoje, o sertanejo é “só” o gênero mais popular do país. Aí que está o pulo de gato que os modernos do sudeste seguem ignorando. Sertanejo, agro e Bolsonaro Entre Mano Brown e Gregório Duvivier, entre Lula e Freixo, entre o Leblon e a Rocinha; existe um gigante desconhecido da elite intelectual brasileiras que alguns chamam de Brasil profundo, outros de Brasil real e eu chamo apenas de casa.


Eu me criei numa cidadezinha de interior pouco maior que a Uruaçu de Rodolffo. A música dominante nos churrascos e rádios AMs lá sempre foi o sertanejo. Quem não tinha sítio trabalhava para alguém que tinha. Quando ainda não existia escada rolante na cidade, nem elevador (como disse uma vez a Sabrina Sato no programa do Jô Soares), tive vizinho que trabalhava como carroceiro e vizinhos que trabalhavam como bóias-frias.


Todos meus amigos gays só saíram do armário quando se viram bem longe daquela cidade onde o que mais se vê pelas ruas são farmácias, botecos e igrejas, muitas igrejas. E foi lá onde nasci, lá onde as panelas não batem quando o presidente mente, que Jair Bolsonaro teve 75,15% dos votos. Na Uruaçu, de Rodolffo, a lavada foi menor 59,35% para Bolsonaro. Rodolffo e Caio, outro goiano, fazendeiro natural de Anápolis (GO), passam os dias no reality brasileiro falando do campo, de animais, da vida rural. Tem gente que acha forçado. Nunca botaram o pé no interior do país. É uma região dominada pelo agronegócio, o único setor da economia que cresceu em 2020 e que domina nossas exportações com o declínio da indústria nacional. É a região que criou o sertanejo, o gênero mais tocado nas rádios e plataformas de streaming do Brasil. E é do interior do país que vem Bolsonaro e Lula, as duas maiores forças da política nacional hoje. Como fazer com que as “boates de Goiânia” respeitem os meninos de vestido? Ontem (23), dia em que as votações por minuto do BBB batiam recordes, a Globo exibiu um VT de Rodolffo dizendo para Fiuk que havia sido criado em uma cidade pequena onde as pessoas eram racistas e homofóbicas. Que ele queria melhorar, mas que as pessoas não tinham paciência com ele. Depois de se safar do paredão por pouco, Rodolffo, que declarou voto em Jair Bolsonaro em 2018, disse que o “o mundo está cheio de mimimi” (algo que meus conterrâneos de Penápolis vivem repetindo nas redes sociais).


Rodolffo e Fiuk terminaram o papo abraçados. Existe alguma chance desse diálogo entre esses dois Brasis acontecer? E se acrescentarmos nesse debate o Brasil de Lumena, a BBB negra, lésbica e ativista nascida na Bahia? Sei que o clima no país é de tensão. No grupo de WhatsApp da minha cidade recebo, com susto, fake news dizendo que o tal vermífugo é 90% eficiente contra o coronavírus, mas qual a chance do país mudar se o coração do país não mudar junto? Qual a chance de meninos de vestido andarem tranquilos nas “boates de goiânia” se não convencermos os Rodolffos do Brasil de que cada um veste o que quiser; ama quem quiser?


O termo “boate de goiânia” aqui é uma referência direta à fala de Rodolfo. É óbvio que Goiânia não se resume ao sertanejo. A “boate de Goiânia” é Uruaçu, é minha Penápolis natal e é Caetés (PE), onde Lula nasceu. A “boate de Goiânia” é o Brasil, quem não entendeu isso, ainda, está por fora. Sei que “quem tem fome tem pressa”, quem é ameaçado de morte tem mais pressa ainda, mas é esse Brasil que parte de São Paulo e Rio ignoram que tem o dinheiro, as rádios, as armas, a igreja e o presidente. Na madrugada de ontem, enquanto as panelas batiam nos bairros ricos da capital paulista contra o presidente, o resto do Brasil decidia que Rodolffo deveria vencer o paredão. Assim como decidiu que Jair Bolsonaro venceria a eleição em 2018.


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