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  • Fred Di Giacomo

Um caipira em Berlim

originalmente publicado na revista Ocas, 2019



“Papai, a vovó vai trazer o Brasil com ela?”. Sete meses depois de mudar de país, o filho ainda gostaria que alguém trouxesse em suas malas o calor, a língua, os pássaros, a família e o estoque infinito de farinha de mandioca que ele não sabe de onde vem, mas sabe que gosta. Faz frio e chove lá fora. Cinzas, os dias terminam cedo. O sol ainda vai dormir às 17h. Se o Fred de 15 anos, lá na ensolarada Penápolis, coração do Brasil, visse essa cena não acreditaria. Vinte anos atrás, só o ato de voar de avião parecia algo tão insólito que era mais fácil contentar-se em sonhar com meter os pés no mar, distante mais de 500 quilômetros da cidade natal. As viagens da infância costumavam ser para dentro da gente mesmo.

Mas vida foi gentil. Estudei jornalismo, ainda no interior, arrumei um emprego, conheci minha esposa, cuja família — vejam só — era alemã. Depois de uma primeira temporada fora do país, nunca me senti tão caipira. Caminhar pelas ruas de Berlim — polvilhadas de gente do mundo todo e temperadas pelos quitutes dos turcos que para lá emigraram — me fazia pensar: o que me faz sentir estrangeiro em meio a tanta fartura? Em Berlim, toda parte racional é excelente: transporte público conecta a cidade de ponta a ponta, há segurança e, lá, desabrocha o romance improvável entre o livre mercado e o estado de bem-estar social que o Brasil polarizado de hoje não pode nem vislumbrar. Que faltava, então? Aquela coceirinha na alma só poderia ter caráter sentimental. Guardei-a numa caixinha para cuidar dela quando voltasse para casa.

De volta ao Brasil, segui o conselho do médico-escritor Drauzio Varella: “Se você não é um gênio como Tolstói e Dostoiévski que podem converter qualquer banalidade em um grande livro, escreva sobre algo que só você poderia contar”. Decidi narrar, então, a trágica e violenta colonização da minha cidade, fundada sobre os ossos dos kaingangs, em um romance chamado “Desamparo”. Mergulhei na quentura do sertão paulista tão distante da neve alemã e habitado por saracuras, jaós, ipês, perobas, cabriúvas e vinganças sangrentas. Quando o livro ficou pronto e foi lançado, minha esposa ganhou uma bolsa para estudar em Berlim e voltamos para a terra dos seus ancestrais com nosso filho de dois anos e meio e as memórias do cerrado caipira.

Morar em outro país com uma criança pequena te leva a uma imersão muito maior na cultura local. Você passa a conviver com os coleguinhas do seu pivete e com os pais desses coleguinhas. Você precisa entender o sistema de saúde e de educação, as regras de etiqueta e, até, as tradições locais celebradas pelos pimpolhos alheios. Seu filho passa a ser um pequeno embaixador cultural da pátria adotiva assim que aprende a nova língua.

No nosso caso, o filho passou 4 meses chorando e implorando para voltar para casa. No quinto mês fez-se o milagre da transubstanciação. Nosso pequeno havia tornando-se um poliglota capaz de comunicar-se na língua bárbara muito melhor que eu (que ando fazendo um curso intensivo diário) e disposto a corrigir minha pronúncia precária. Com a língua aclimatada, a creche deixou de ser tortura e os pequenos locais deixaram de ser inimigos. Entendemos as comemorações natalinas (que por aqui correm o mês de dezembro inteiro) e tivemos que ceder às emoções insossas de um “dia de Carnaval alemão”.

O filho ainda espera que a avó traga o Brasil na mala. Mas não percebe que, ao enunciar esse desejo, sua voz sai com um leve sotaque germânico e suas raízes alargam-se; transcontinentais.

Fred Di Giacomo é escritor e jornalista multimídia. Autor dos livros “Desamparo” e “Canções para ninar adultos”, entre outros. Coordenou e editou a primeira edição do “Prato Firmeza: guia gastronômico das quebradas de SP” (finalista do Prêmio Jabuti). Co-criador do game “Science Kombat” e do Glück Project.

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© 1984-2019 por Fred Di Giacomo, entre São Paulo e Berlim.

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