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Criolo: reportagem de capa para a GQ Brasil

Foto do escritor: Fred Di Giacomo
Fred Di Giacomo
12 de set.
9 min de leitura

Sapatos e bolsa da Gucci para o ar. Quando chego ao Formosa Hi-Fi, listening bar que só toca vinis, localizado no centro de São Paulo, colado nos imponentes Theatro Municipal e Shopping Light, Kleber Cavalcante Gomes, 50, parece animado. Acompanhado a uma distância segura por seu irmão Cleon, 36, ele salta no sofá, arremessa os sapatos e a bolsa da grife italiana para o alto e faz caretas para a câmera do astro da fotografia Bob Wolfenson. “Ele está à vontade”, diz Cleon.

Kleber, ou Criolo, como é conhecido mundo afora, segura ora o trompete, uma referência ao momento jazzístico de sua música, ora o MPC com o qual compôs parte do seu disco vindouro, gravado em trio com o pianista pernambucano Amaro Freitas e o multi-instrumentista português (de origem cabo-verdiana) Dino D’Santiago. “Nunca havia conhecido um artista que respirasse música em cada segundo”, afirma D’Santiago para a GQ Brasil.


“No estúdio, ele flui canções como quem se senta para conversar, oferecendo silêncios tão densos que se tornam resposta.” O disco é apenas uma das camadas da comemoração, que inclui a tour “Criolo 50”, iniciada em agosto. Mas toda essa celebração, e também a matéria que você lê agora, só existe porque um plano não deu certo.

É que, em 2010, Criolo estava convencido de que sua carreira chegara ao fim. O fim


Depois do estouro do premiadíssimo “Nó na Orelha” (2011), fica difícil imaginar que o plano de Criolo naquela época seria encerrar sua carreira. O artista já estava na estrada musical havia anos, mas seu reconhecimento era limitado.

Em 2010, ele lançara “Sucrilhos”, de forma independente, no qual cravara a frase “Saber parar é pra homem sábio”. Para a revista “Rolling Stone”, em 2017, seu parceiro DJ DanDan afirmou: “Senti que o Kleber via aquela galera (Emicida, Flora Matos, Projota) toda virando e ele, que estava havia ‘milianos’, não acontecendo, sabe? Ele falou: ‘Acho que já contribuí o suficiente, vou parar’”. Ainda havia tempo?

Tendo trabalhado em diversos empregos, de caixa a arte-educador, Criolo já até estreara como ator no filme independente “Profissão MC” (2009), dirigido por Alessandro Buzo e Toni Nogueira. A ideia, então, era lançar um álbum de canções. Uma faceta melódica que não ficara evidente nas 22 faixas da sua estreia com “Ainda Há Tempo” (2006), mais voltado para o rap. Produzida por Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral, sua “despedida” logo estourou com o hit “Não Existe Amor em SP”. Postada originalmente no YouTube, a música ultrapassou 14 milhões de visualizações. Era apenas o começo. O disco não parou de emplacar faixa atrás de faixa, em uma combinação de versos de rap intercalados com melodias da MPB. “Nó na Orelha” ganhou mais de quarenta prêmios, segundo cálculos do produtor Ganjaman. Criolo se apresentou no VMB da MTV ao lado de Caetano Veloso; Ney Matogrosso regravou “Freguês da Meia-Noite”; e Chico Buarque passou a citar o rapper sempre que cantava “Cálice” ao vivo. O fim se tornou (re)começo. Voltemos ao início. O início


A primeira lembrança de Criolo fazendo arte, para Maria Vilani Cavalcante Gomes, 75, remonta há mais de quarenta anos. “Foi em uma dança cigana, na escola, quando cursava o ensino fundamental I”, conta a mãe do artista. Dona Vilani — filósofa, professora, escritora e fundadora do Centro de Arte e Promoção Social (CAPS) — é uma lenda viva do Grajaú, bairro da Zona Sul, onde Criolo foi criado.

“O Grajaú veio se consolidando como um território cultural e político de grande intensidade. Maria Vilani foi uma das principais instigadoras de todas essas ações. É alguém que mobiliza as pessoas a criar”, diz Fábio Roberto Lucas, professor do programa de pós-graduação de literatura e crítica literária da PUC-SP, que foi mediador do Café Filosófico, projeto criado por Vilani.


Se Maria Vilani resgata a apresentação do filho no ensino fundamental, a primeira lembrança de Criolo fazendo um show vem de 1989: “Eu pedi para cantar em uma festa de doação de roupa e comida da associação de moradores do Jardim Manacá, mas já escrevia rap desde 1987”.

Outra recordação surge quando lhe pergunto sobre a infância. Era a Copa do Mundo de 1982, campeonato do qual o Brasil foi eliminado. O cantor tinha ainda 6 anos. “Estava com o meu pai, não tinha mais ninguém em casa. Eu chorava de soluçar; toda a favela ficou triste porque eram os nossos heróis, pessoas parecidas com a gente, brilhando em outro país”, conta, garantindo que, apesar de ser péssimo com a bola no pé, ama o futebol e o Corinthians.

O pai, que assistia com ele à eliminação do Brasil de Zico e Sócrates diante da Itália de Paolo Rossi, é o ex-metalúrgico Cleon Gomes, 75. O mesmo Gomes que o levara de ônibus até o bairro da Liberdade, onde o pequeno Criolo ficou fascinado pela cultura nipônica. “Até hoje quase todo álbum meu tem alguma citação à cultura asiática, seja um sample, seja o nome ('Convoque seu Buda'), seja uma faixa. ‘Lion Man’ é inspirada em um seriado japonês que passava na extinta Manchete e falava sobre a transformação de um jovem guerreiro, do período medieval, em uma entidade que protegia as pessoas.”

Gomes e Maria Vilani, que migraram de Fortaleza para São Paulo no fim dos anos 70, fizeram florescer um jovem sensível e aberto às mais diversas referências culturais mesmo “num ambiente tão áspero”. Raul Seixas, Ney Matogrosso, Martinho da Vila, Elza Soares e Luiz Gonzaga surgem quando pergunto quais eram as músicas que seus genitores ouviam em casa. Ney, de ídolo da família, se tornaria parceiro de Criolo em diversos projetos, entre eles a música “Algoritmo Íntimo”, de 2022, que acumula mais de 7 milhões de plays no Spotify.


O som que ontem emanava da residência do clã no Jardim Manacá se reflete hoje nas pérolas musicais que Criolo extrai da secura do mundo. Quero saber de dona Vilani que outros artistas fizeram sua cabeça. Ela vai de Mazzaropi e Chaplin a Zezé Motta e Remedios Varo, passando, coruja, pelo próprio filho.


Pela listagem, dá para perceber o rico caldeirão cultural no qual Kleber e seus irmãos foram criados e que inspirou um dos projetos que celebram os 50 anos de Criolo. Trata-se de um “livro de simplicidades, das nossas conversas, as quais sempre desembocam em longas reflexões”, como define Vilani. A obra será mediada pela poeta pernambucana Luna Vitrolira, 33. Mas de onde vem essa ideia? Segundo Criolo: “Sempre que converso com a minha mãe, uma mulher apaixonada pelas palavras, ela fala algo que me faz pensar: ‘Tinha que ter guardado isso’”.

Além do registro da sabedoria materna, existe o desejo de valorizar um conhecimento subestimado. “Toda mãe é profunda”, diz Criolo. “As pessoas têm algo muito maravilhoso em casa, em sua família. Essas simplicidades da vida dão resposta para tudo.” Assim como reforça a profundidade de uma conversa simples, Criolo questiona, durante toda a entrevista, os limites (e poderes) que definem o que pode ser considerado arte. Como canta em “Sucrilhos”, “Di Cavalcanti, Oiticica e Frida Kahlo têm o mesmo valor que a benzedeira do bairro”. Essa discussão se agudiza quando pergunto sobre a literatura contemporânea A resposta de Criolo parece ecoar o recente debate, iniciado quando a acadêmica Aurora Bernardini afirmou, à “Folha de S.Paulo”, que as obras de Itamar Vieira Junior, Annie Ernaux e Elena Ferrante “são interessantes, mas não são literatura”. “O que é a literatura contemporânea? Eu preciso estar ligado ainda à forma? Literatura é o conteúdo literal, visceral da minha vida, mas há quem fale que isso está na caixa do relato e já diminua sua importância.” E prossegue: “Literatura é só a de quem se alimenta bem? O ser humano é extremamente sofisticado porque nunca para de aprender. As pessoas querem falar que isso é ou não literatura. Ninguém é dono da arte. Se a arte não se transforma... Se a arte não o transforma, você morre por dentro”.

Criolo pensa, ainda, sobre “Sobrevivendo no Inferno” (1997), dos Racionais MC’s, que se tornou leitura obrigatória para o vestibular da Unicamp e foi publicado, como livro, pela Companhia das Letras. “Ele por si só já é um marco histórico da literatura.” Mas pontua: “É difícil as pessoas compreenderem que a literatura não é só europeia. É uma discussão contemporânea... tardia”. Coincidência ou não, a primeira faixa do novo disco de Criolo, que a GQ Brasil ouviu com exclusividade, tem inspiração literária. Chama-se “E se Livros Fossem Líquidos?”.

Criolo posa para a GQ Brasil. Foto: Bob Wolfenson
Criolo posa para a GQ Brasil. Foto: Bob Wolfenson

O meio


Parceria de Criolo com Amaro Freitas e Dino D’Santiago, a faixa de abertura tem inspiração jazzística, e conta com a bateria do virtuose Sergio Machado — que já tocou com mestres do jazz como o trombonista Raul de Souza e o baixista Ron Carter. “Queria propor novos campos harmônicos que não são comuns nos últimos lançamentos da MPB e do rap. Queria propor o improviso e a influência não só do jazz, mas da música nordestina”, diz Amaro sobre o disco. A influência do jazz no trabalho de Criolo pode ser sentida desde “Nó na Orelha”, em que ele cita o músico nigeriano Fela Kuti e o etíope Mulatu Astatke, com quem já dividiu o palco. Fela, rei do afrobeat, parece ser uma das grandes paixões sonoras de Criolo. Entre os vinis que trouxe para a nossa sessão de fotos, encontram-se duas caixas de discos do nigeriano, ao lado de álbuns autografados de Milton e Caetano.

Além de belas harmonias vocais e pianos sublimes, Amaro sortiu o disco com baluartes da música pernambucana, como a rabeca de Maciel Salu, em “Menina do Coco de Carité”. Filho do célebre Mestre Salu — homenageado pelo Nação Zumbi em “Salustiano Song” —, ele acrescenta uma camada decisiva à sonoridade do disco. “A-i’ahu”, que significa “nós estamos doentes”, na língua sateré-mawé, tem letra reciclada de “Chuva Ácida”, do primeiro disco de Criolo. Seu refrão grita “a Amazônia tá pegando fogo”, refletindo a urgência da crise climática que vivemos.O fato de uma letra com mais de vinte anos fazer sentido hoje me leva à pergunta óbvia: “Algo mudou de lá para cá?”. “Mudou. A Amazônia está mais desmatada!” “A-i’ahu” cita um “caranguejo gigante”. Caranguejo e Salu no mesmo disco? Mais mangue beat impossível. Fico curioso para saber qual o impacto de Chico Science em Criolo. “Nos anos 90, eu, muito moleque, fui influenciado por Chico Science & Nação Zumbi, Planet Hemp, O Rappa e, um pouco depois, Charlie Brown Jr. Foi a primeira vez que me interessei por rock, porque os caras tinham a ver com a gente; o rosto dos integrantes de Nação Zumbi parecia com o da gente. E a música tem rosto, né, mano?” Foi com o Planet Hemp, inclusive, que Criolo ganhou um Grammy Latino por sua participação na faixa “Distopia”, do disco “Jardineiros”. “Aquilo foi um presente para mim. Como quando o Sabotage me chamou para participar do clipe dele de ‘Um Bom Lugar’. Os grandes de verdade são muito generosos. Quem é de verdade está em paz. Quem não sabe o que é está em conflito.”

As reflexões de Criolo ecoam no listening bar que se prepara para receber seus comensais em busca de drinques, música e bons petiscos. Há poucos minutos finalizamos a sessão de fotos na área externa. Mais especificamente na fonte em frente a uma estátua imponente de Carlos Gomes, compositor brasileiro, autor da ópera “O Guarani”.

Cheiro de urina e arquitetura neoclássica se misturam no centro, que já foi a área mais nobre de uma metrópole em crescimento desvairado. “Há quase 25 anos, fiz o clipe de uma música chamada ‘No Sapatinho’ no mesmo lugar em que me sentei ali fora para fotografar. Tive que me segurar para não ir às lágrimas”, emociona-se Criolo. “O centro da cidade ainda é um desafio, ainda é uma janela a ser aberta para quem sonha em divulgar seu trabalho. Porque as pessoas fazem um recorte de quem pode e de quem não pode andar pela cidade.” As tensões entre centro e periferia aparecem com frequência nas letras do rapper, hoje morador da Vila Mariana. Na letra de “Pequenina” (homenagem à sua irmã Cleane, morta por covid), ele canta “Prometi que ia ser rico e cuidar dos meus irmãos”. Falar de dinheiro importa? “É importante falar de dinheiro e prosperar, senão estaremos sempre do lado mais frágil do tabuleiro. A questão é o que você faz com essa prosperidade depois que chega lá. Existe revolução sem capital?” Eu não tenho resposta. Criolo repete a pergunta. Reflete. Silencia. “Revolução é meu pai e minha mãe darem todo amor para nós naquele barraco”, diz.

Estamos no final do dia de uma quarta-feira, sentados frente a frente. Criolo, que chegou cedo para a sessão de fotos, veste uma camiseta branca da banda inglesa The Cure e bebe alguns copos d’água. Seu rosto ainda carrega parte da base e do corretivo que a maquiadora da GQ Sabrina Silva aplicou.

Moda e beleza. Criolo, curioso, passou o ensaio perguntando para nosso stylist Pedro DDN sobre as roupas que vestia, especialmente as peças nacionais. Interessou-se por uma calça criada pelo designer Will Cypriano, seu conterrâneo do Grajaú. “Se você tirar da moda a contribuição de quem vem da rua, do hip-hop, do skate, do punk nos últimos vinte anos… acabou o rolê!”

No último prêmio Men of the Year da GQ Brasil, Criolo compareceu vestindo um kit da Pace, marca do designer paulista Felipe Matayoshi. Ele também elogia Jubba Sam, da Dod Alfaiataria, e Ferréz, criador da 1DaSul. “Amo quando vejo uma pessoa se vestindo fora do padrão. Se o que me veste é o meu sonho, isso não é a verdadeira moda?”

Sobre autocuidado, diz que não está praticando exercícios e que já cuidou da pele. Ressalta que é importante pensarmos no skincare não só como vaidade, mas como saúde. Que a dificuldade dos homens em se cuidar passa pela homofobia.Dentro de minutos, Criolo irá embora. Parará para tirar uma foto com o time de funcionários do Formosa Hi-Fi e rumará para casa depois de mais um dia de trabalho. Sabendo que o fim de nosso papo se aproxima, digo que meu filho, de 9 anos, está virando fã de sua música e que ele gostaria de saber qual foi a canção que Criolo mais gostou de compor: “Diz para ele que é a que eu ainda não fiz”. E quais são os sonhos do Criolo de 50 anos para o futuro? “Ser feliz é um deles.”


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